Resolvi escrever para ele um email curto com todo aquele nada, como de costume. Continuo fazendo isso, correndo atrás, deixando portas abertas para o retorno de quem não tem vontade de dizer olá novamente. Selamos um acordo de amizade, um carinho temporário até encontrarmos outras pessoas. Encontramos amigos que nos levaram para sair, mas não deu para mim, porque continuo achando o mundo mais interessante quando olhamos da janela do carro acelerado na estrada.  A vida é curta e tem som de ponteiro de relógio vagabundo. Faz bem largar tudo, fazer as malas, encarar identidades novas em lugares novos. Viajei e continuo enviando esse monte de nada que sempre escrevi. Em alguns momentos eu juro que trocaria aeroportos por você. Em outros, eu só espero a página virar, pouco molhada na ponta por quem levou os dedos à boca. Os mesmos dedos e a mesma boca que foram seus durante anos.

O email curto é sincero. Veio de uma ideia rápida enquanto escutava um som bom. Veio de uma saudade mais ligeira ainda, que só bate quando o tempo é de sol, mas com vento gelado pra congelar o nariz. Minha boca rachou, rachou também a hora de voltar para casa. Eu sei, é difícil dele compreender. O acordo não permitia negociações futuras. O nada, esse todo nada que escrevi, é uma reunião de vontades de ter alguém novamente. Não sei como ele está, não sei se está bem, se está alto, se casou, se tem filhos e faz pós-graduação. Sei que foi embora deixando um pedaço dentro de mim que é difícil de tapar com a inconstância da mente de quem se arrependeu.