Comecei a escrever um livro bonito. Chamo de bonito porque às vezes eu tenho mania de chamar as coisas de bonitas. É um elogio bobo para as horas em que não sabemos classificar as coisas ou as pessoas. Enquanto o livro não era chamado de livro, era apenas um rascunho. Passei muito tempo chamando ele de rascunho e amando esse nome. Enquanto ele era rascunho, ninguém queria ler. Agora que chamo de livro, todo mundo quer uma folhinha. Só uma, duas, a quinta frase da 56ª página. Não dá. O livro ainda é rascunho pra mim, só estará completo na minha cabeça, até mesmo quando for publicado.
Eu procurei um bom nome até no fundo da gaveta das minhas ideias publicitárias, mas ainda não achei. Por isso eu chamo de “rascunho”, de “livro”, de “bonito”. São nomes genéricos, para não dizer “você”. Ele é você incompleto. E a arte de escrevê-lo consiste em ter algo completo só para mim. Como você não foi, insiste em não ser, mas que eu nem me esforço tanto para ter. O livro está ali, fazendo pouco caso de mim, me querendo menos que outros. O livro não me quer, mas depende de mim. Por isso ele parece tanto com você. Por isso eu quis tanto chamar ele com seu nome. Acontece que isso eu também não posso. Não posso citar você, nem coisas sobre nós dois. Isso me dói um pouco. É um desafio escrever você.