Não entendia o que aquela palavra queria dizer. Assim como também não entendia por que eu não podia agir como eu bem entendesse. Segui os demais anos da minha vida da mesma maneira: não entendo palavras e restrições. Nunca fui de me destacar como feminista, inteligente, burra demais, rica demais, estranha demais. Sempre fui a mais ou menos. A mais ou menos que todo mundo conhecia, mas não lembrava onde, nem por que. Cresci desse jeito, sendo e sabendo mais ou menos das coisas. Esperando o clic que a vida dá, enquanto tomamos um café em qualquer bistrô barato. O clic que nos direciona para um casamento, um negócio, uma viagem. É esse abstrato cair de ficha que faz o filme parar e te apresenta um retrospecto calcular de tempo. É nesse momento em que sentimos a consciência. Ela, que não para de repetir em nosso ouvido para sermos mais rápidos nas decisões, nos amores. Creio que eu não tenha a sensibilidade de ouvir a tal voz. Pois por mais que ela repita, eu não compreendo a necessidade de me decidir. Quero tudo, quero nada, quero o mais ou menos de que fui para sempre acostumada. Não, não entendo como um simples cara, sem nada em comum, sem nada a oferecer, não possa me dar carinho esta noite. Deu. O outro também deu na noite passada. E assim seguem as noites em que me sinto sozinha: em um emaranhado de carinhos. E assim como aqueles que se sentem pressionados pela busca do carinho único, sigo tentando. A diferença, creio eu, esteja na quantidade de mundos que me rodeiam. O carinho não vem só de homens, de pessoas, vem de trabalho, de fotos impressas (que valem mais no peito do que as digitais), vem daquela moqueca no restaurante de Lisboa. Eu estou vendo carinho em tudo, toda hora, que me perco onde devo deixar mais de mim. Em você, em mim, nele, ou simplesmente lá, perto do porto. A ficha só caiu uma vez, quando um cara disse para mim: você consegue mais do que isso. Ele se referia a um texto que eu gostava, de uma escritora que eu gostava, mas para mim foi além. Esse isso, que ele falou, era a palavra que resumia a minha infinitude de coisas e pessoas, a minha infinitude de ser mais ou menos para elas. Isso, era a tal palavra que eu nunca entendera na vida, da forma que explicavam. Isso, agora era a única palavra que eu entendia o que queria dizer.