Senti vontade de vomitar de nervoso, de angústia, de tristeza e stress.

Entendi, finalmente, o emaranhado que os nossos sentimentos podem nos causar na região da barriga, como se as borboletas que vivessem lá quisessem nos sabotar. Senti que elas queriam sair voando pela minha goela, enquanto até então elas só se manifestavam dançando valsas em momentos de forte paixão. Até que seria bonito ver uma pessoa a vomitar borboletas por aí, se não soubéssemos como é bom tê-las aqui dentro. E a gente não quer deixá-las saírem, não é mesmo? A gente não quer deixar que elas voem para fora de nós e que, no lugar, fique um buraco vazio, nos transformando em pessoas ocas. Não quero nunca ser uma pessoa oca. Então a gente se esforça para aguentar elas se remexendo ali dentro, enquanto ao mesmo tempo tentamos lidar e brigar com aquilo que se remexe lá em cima, na nossa cabeça mesmo, nos fazendo pensar um monte de abobrinha que quase sempre não faz sentido algum.

Até agora não vomitei. Estou segurando forte cada impulso de mim que leva a raiva e a tristeza a empurrarem meu coração para fora. Engulo com força a saliva, imaginando que nela está toda a minha vontade em controlar meu próprio corpo. Perdi a fome, pois o aperto no peito não deixa a gente imaginar alimento algum sendo capaz de fortalecer quem parece já estar morto por dentro. Mas forço garfadas no almoço e no jantar. Sou carcaça, mas sou uma carcaça que vai comer, sim! Vai comer, vai levantar, vai pagar tudo sorrindo pra moça do caixa e vai fazer outras várias coisas no dia, porque é assim que a gente vivia até deixar nosso coração mandar na parada toda.

No entanto, se por ventura eu deixar esse espectro de sentimentos ruins tomar conta de mim, eu vou, sim, vomitar todas as borboletas. Ah, como vou!

Você fica
É você quem sempre fica
Os oficiais chegam e ficam um pouco,
tá certo.
Mas se vão, enquanto você fica.
Você é quem sempre fica
Mas dessa vez você ficou demais.
Ficou tanto, que eu me fui
E como é sempre você quem fica,
Você ficou.
Ficou sozinho.

“today my professor told me
every cell in our entire body
is destroyed and replaced
every seven years.

how comforting it is to know
one day i will have a body
you will have never touched.”
—via @impactings

Chegou em casa, chutou as sapatilhas para tirá-las e andou pelo breu da sala até alcançar o abajur, enquanto ele, mais atrás, brigava com os botões do interruptor. “Desiste. Não tem lâmpada no teto. Não gosto. Prefiro essa luz indireta do abajur”, disse ela enquanto abria a janela grande da sala. O apartamento era antigo, espaçoso, com janelas largas e carpete no chão. Aliás, era por conta do carpete que ele ainda estava na pequena entrada, agachado, desamarrando os tênis para poder entrar. Só se entrava naquele apartamento descalço. Enquanto ela caminhava para o corredor, pensava como era engraçada essa paciência do rapaz em desamarrar os sapatos com tanta calma. Ela estava mais acostumada a escorregar as sapatilhas para fora do pé, ou tirar o tênis empurrando o calcanhar de um pé com a ponta do outro.

Ela entra no quarto e começa a tirar a calça de forma atrapalhada, abaixa até o joelho e – quase como numa desistência de fazer esforço – tenta terminar sacudindo as próprias pernas. Se joga na cama e resmunga com o rosto no travesseiro. Ele, na cozinha, coloca as cervejas na geladeira, pega uma só e grita: “Quer dividir?”. Sem resposta. Ele abre mesmo assim. Ao chegar no quarto, ri e acende a luz. “E aí, vai desistir já?”. Sem resposta. Ele então senta na beirada da cama e fica brincando com o cabelo dela com a mão esquerda, enquanto bebe com a direita.

“Eu estava aqui pensando. Já passou pela sua cabeça como é louco a gente gostar de alguém? Encontrar alguém, que não é perfeito e que apesar dos momentos bons, também te traz momentos ruins (pausa) tipo você agora, que me fez ir até o mercado comprar cerveja e está desmaiada na cama me ignorando (pausa), mas que por algum motivo te faz parar de olhar para as outras pessoas, te faz parar de procurar. Não é louco?”

É. ô. Muito. – pensou ela, enquanto levantava e sentava após se sentir mal com a indireta. Pegando a cerveja da mão dele com um sorriso de quem pede desculpas sem pedir, ela bebe enquanto ganha tempo para pensar no que responder.

“Mas eu nunca parei de procurar.”

Entre um gole e outro, a frase sai pausadamente de forma proposital, enquanto, com o canto do olho, ela observa a expressão dele, um pouco desapontado. “Eu não parei de procurar e aposto que você também não, só passamos a ter mais critérios na escolha. E o critério, no caso, é a referência que temos um do outro. Posso continuar procurando, mas isso não quer dizer que vou encontrar alguém que eu goste tanto ao ponto de deixar você. Você é a minha referência atualmente.”

Ele pega a cerveja de volta meio puto.

– Ah, qual é?! Até parece que você tem muitos planos para nós.

– Não tenho?

– Não… Tem?

– Tenho.

Ele me mandou um jazz. Na verdade não mandou, postou um álbum no Twitter e a minha mente inquieta, que no momento procurava por algo para dar sentido aos barulhos dos mil teclados sendo socados na redação, ouviu aquilo como um presente. Quanto mais rápido o piano, mas rápidos eram os dedos, que tentavam em vão dançar como os do músico. Ora pois, eu que sempre quis ter dedos de tecladista, passo os dias a dançar com os meus e nada vejo deles a se alongar, continuam curtinhos, meio achatados – e sem jeito para servir de modelo a anel algum.

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