Toda história de amor tem sua trilha sonora. Eu poderia fazer uma playlist para cada pessoa que passou pela minha vida. Cada homem: uma, duas, três músicas. Hoje, depois de tantos anos, reli nossos emails, lembrei de nossas trocas diárias de músicas. Cada “bom dia”, “bom trabalho”, “lembrei de você” era uma música, um refrão destacado no corpo do texto. Resolvi abrir um por um. Anotar todas as músicas em um bloco de notas. Aí fui escrevendo esse texto ao mesmo tempo, porque a cada mensagem aberta eu era invadida por uma lembrança e uma vontade boba de escrever para você. Quero dizer, escrever aqui para você, porque sei que não vou te entregar nada. Prefiro te deixar quietinho onde está. Afinal, se você até agora não me procurou, é por algum motivo. Talvez o mesmo pelo qual eu não te procurei também: mexer com um amor que um dia foi intenso e verdadeiro é perigoso.

Você rendeu mais que uma playlist, mais que um CD. Certos dias parece que enviar uma música só não era suficiente para nós e então enviávamos o álbum inteiro. “Trilha sonora para a semana” eu digo em um email. “Para lembrar daquele show”, você dizia em outro. E discos inteiros eram enviados. Opa! Encontrei um aqui engraçado. Não lembrava que além de fazer recomendações um ao outro, nós também dizíamos as canções que nos embalaram enquanto escrevíamos nossos emails longos. Puxa. Eu tinha mesmo o costume de escrever ouvindo música naquela época, hein? Ou estou ficando velha, ou me faltam singles apropriados, pois não consigo me concentrar mais com batidinhas ao fundo. O que deu em mim nestes últimos anos, meu Deus?! “Escrevi tudo ouvindo isso”, você fala em um dos emails, seguido por um link.

Um dia você me mandou esse lance aqui (e naquela época eu nem imaginava que Osho ia virar um dos maiores best sellers no mundo):

Immature people falling in love destroy each other’s freedom, create a bondage, make a prison. Mature persons in love help each other to be free; they help each other to destroy all sorts of bondages. And when love flows with freedom there is beauty. When love flows with dependence there is ugliness. A mature person does not fall in love, he or she rises in love. Only immature people fall; they stumble and fall down in love. Somehow they were managing and standing. Now they cannot manage and they cannot stand. They were always ready to fall on the ground and to creep. They don’t have the backbone, the spine; they don’t have the integrity to stand alone. A mature person has the integrity to stand alone. And when a mature person gives love, he or she gives without any strings attached to it. When two mature persons are in love, one of the great paradoxes of life happens, one of the most beautiful phenomena: they are together and yet tremendously alone. They are together so much that they are almost one. Two mature persons in love help each other to become more free. There is no politics involved, no diplomacy, no effort to dominate. Only freedom and love. — Osho

Uma das coisas mais legais de escrever para alguém por aqui, sem nunca mostrá-la de verdade, é que a gente pode ser bem sincero. Ou melhor: bem escroto. Eu sempre ouvia o que você enviava, mas nem sempre eu guardava, nem sempre aquilo me encantava de primeira. Encontrei uma música que você enviou e, putz, me lembrou outra pessoa. Você me enviou primeiro, mas logo depois eu devo ter esquecido, porque um dia ouvi no carro de um carinha e depois ainda recebi ela de novo numa mixtape feita por um outro carinha. Eita musiquinha que me segue. Ou talvez fosse você me seguindo. Quem sabe minha memória me sabotou para eu não me lembrar de você. Ou talvez eu mesma tenha me sabotado.

Agora abri uma aqui que nem lembrava e que nem te respondi (escrota novamente que sou). No corpo do email você escreveu um trecho que decidi que vai ser o grand finale desse texto. Aguarde só, vamos ver se você vai lembrar qual música era. Uma dica: aconteceu lá nos meados de março de 2013. Ou seja, há exatos dois anos atrás. Acabei de levantar e dar um beijo no meu marido. Ele saiu para correr e agora está na cozinha fazendo uma vitamina para nós. É estranho que eu esteja escrevendo para você nessas circunstâncias? I guess it is. Ele não fala português, está aprendendo, mas com certa falta de interesse, eu sinto. Só o suficiente para sobreviver, já que eu trabalho e estudo o dia todo. Nunca leu meus textos e jamais lerá, muito menos este. É esquisito saber que estou com alguém que nunca leu nada que escrevi. Quero dizer, a escrita, o meu blog e o meu jeito de falar sobre as coisas sempre foram tão ligados à pessoa que sou. Sempre foram quase que características intrínsecas. Penso se isso é uma coisa boa ou ruim, já que ao mesmo tempo que o texto conquista, também decepciona. Consigo machucar muito alguém com o que às vezes eu escrevo. Você sabe disso melhor do que ninguém. Afinal, eu estou provavelmente fazendo isso agora.

Nesses anos todos trocando músicas, notei que poucas delas tinham clipes. A maioria eram links do Youtube para uma página estática com a capa do disco ou somente o nome do single. Foi interessante encontrar de vez em quando alguns vídeos. O do Rhye chamou a minha atenção. Parei de escrever para acompanhar a história do casal protagonista e lembrei de ter assistido com o mesmo interesse quando você enviou o link para mim. Por alguma razão náo encontrei nenhuma resposta minha sobre ele para você. Talvez a gente tenha conversado pessoalmente, ou por Skype. Acredito que naquela época eu já tinha me mudado.

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Falando em se mudar, acabei de ler uma frase em que você dizia que estava indo me visitar. Bem ali, na palavra visita, você colocou um hiperlink para aquela música do Silva. “Vou lhe fazer uma visita, mas não fique assim aflita, que eu não sou de reparar. Não precisa de banquete, não se preocupe com enfeite, não vá se empetacar.” Sempre admirei esse seu dom de nos lembrar de músicas a partir de uma palavra. Qualquer coisa falada era deixa para um refrão. Foi assim que o nosso tempo junto me rendeu o namoro mais musical que já tive. Fico pensando se esse é o seu jeito de colocar trilha sonora na sua vida. Se for, obrigada, adorei a trilha do nosso romance.

Opa! Esbarrei em uma conversa erótica. Esse negócio de sexo a distância deve ser uma daquelas coisas que todo mundo diz que jamais faria, até o dia em que percebe que é pointless se masturbar sozinho quando se tem alguém com quem falar todas aquelas besteiras sexuais que nos ajudam a chegar lá. Por coincidência, o email seguinte foi intitulado como eu intitularia aquele com a conversa erótica anexado: secret. Mas dentro dele só tinha você dizendo que estava viciado em uma música, mas o link do Youtube não abriu. Talvez ela devesse ser mesmo mantida em segredo.

“Vou te confessar um negócio. Dessas músicas que eu te passo, às vezes eu vou atrás de alguma coisa nova só pelo prazer de te mandar. Me dá uma vontade assim, do nada, de te mandar qualquer coisa. Por isso que nem todas são grande coisa”. Serei escrota novamente. Pelo simples motivo de: sou assim. Teve uma vez, encontrei aqui, que você me contou sobre um cara que você conheceu e se amarrou no EP. Acho que ele fazia parte de uma banda que nós dois gostávamos e ainda lembrava outro que também ouvíamos. Até hoje, eu nunca tinha ouvido a música enviada em anexo. Nunca nem respondi o seu email. Você teve o EP inteiro para escolher uma música e foi escolher aquela que justamente carrega o nome do cara com quem te trai. Tentei, mas não consegui lembrar da minha exata reação ao ver o título da faixa. Meu estômago com certeza ficou mais embrulhado do que ficou agora. A vida é mesmo um terrível e ridículo cruzar de coincidências.

“Acho que essa tal de Augusta um dia vai nos consumir uns bons trocados”, dizia você ao enviar aquela do Tom Zé e se referindo aos nossos planos de se mudar para São Paulo. A capital, mesmo cheia de seus problemas, cheia de poluição, cheia de caos e seca, sempre nos intrigou muito. Ir para lá seria ver e viver de perto o cenário cultural que a gente tanto gostava, tanto assistia acontecer de longe. Os shows que você queria cobrir, as revistas feministas para as quais eu queria escrever, os bares que, como você disse, arrecadariam parte dos nossos salários baixos de focas. Se alguma vez ser jornalista pobre fez sentido e possuiu certo glamour na minha cabeça, isso aconteceu enquanto estive seu lado.

“Eu sei que de vez em quando você também finge que algumas músicas foram escritas pra nós dois”. Olha só, acabei de ver aqui. Foram mais de 30.770 mensagens no chat do Facebook e mais de 600 emails trocados, fora as nossas conversas diárias pelo Gtalk. É… agora eu posso afirmar: fingi, sim, que todas elas – as conversas, as músicas, as palavras, as referências, as canções – foram escritas para nós.

“I miss your face like hell.”

Faço planos com o primeiro, mas espero ansiosa pelo segundo me contar os dele, que são feitos na independência do recém solteiro que é. A falta de compromisso com o futuro, a leveza de quem não tem pressa para se preocupar com quem casar, se vai ter filhos, como vai comprar uma casa, um carro, a leveza de quem pode decidir sozinho onde e com quem vai passar o Natal. Enquanto eu sofro na antecipação de um casamento sonhado, porém temido – como todo felizes para sempre é.
Minto. Sofro mesmo é pelo que vem com o casamento em si, que é a necessidade angustiante de fazer todos os seus planos com a condição de agradar duas partes: você e o outro. Além do relógio biológico que uma hora ou outra vai soar. E quando soar?! Qual mulher serei? Serei aquela que diz sim e abandona todos os planos pela sonhada maternidade? Serei aquela que diz não num ato de independência e liberdade diante das pressões familiares?
Queria ter a leveza desse cara. Jamais largaria meu futuro marido por ele, mas ah, como é boa a sensação da incerteza. Nunca sei se sou a única na vida dele ou se ele pensa em mim nas horas vagas e fuça o celular como eu fuço na esperança de encontrar uma mensagem não lida. Tenho vontade de ligar, de chamá-lo para sair todos os dias, mas busco me distrair com outras coisas. No fim, ele só aparece de vez em nunca. É ocupado, como todo solteiro é. Vem, me domina, sussurra no ato que estava com saudades, me faz sentir novamente o que é ser desejada, me traz de volta aquela delícia juvenil de provocar, experimentar sem saber se o outro vai gostar, sem seguir a fórmula padrão que seguimos após completar anos de relacionamento sério.
Depois ele vai embora. Acaricia o meu corpo, diz que é o melhor do mundo, dorme 20 minutos e vai embora lamentando ter que acordar cedo. Ele deve esquecer que também já fui solteira – e não liga no dia seguinte, nem no outro, até que a gente se esbarre de novo. Sou deixada ansiosa masturbando em dedos e pensamentos, com saudade da jovem que era anos atrás, do orgulho e poder que sentia através do meu corpo. Aquilo era uma arma e eu sabia bem como usar. Hoje já me sinto mais tímida, já não entro numa sala com o peito tão estufado, com a confiança tão aflorada. O que aconteceu? Para onde foi a minha moral? O espírito dos 20 passou mesmo rápido assim? Acabou logo nos primeiros anos? Será que vou me arrepender?
Penso o tempo todo em desistir. Penso mesmo. Fico com medo de olhar pra trás e dizer “nossa, tão nova já ancorei no primeiro porto.”

E é verdade, também que pouca gente entendeu a teoria maluca do menino maluquinho mas ele ria baixinho quando a saudade apertava pois descobriu que a saudade era o lado de um dos lados da vida que vinha aí.
Agora, vejam se pode uma descoberta dessas!
Só mesmo sendo maluco ou sendo amado demais.

Ziraldo. O Menino Maluquinho. Melhoramentos: 1994. páginas 85-87

Bleeding heart é um dos Florais da Califórnia, similar aos florais de Bach. É conhecido como um dos florais de desapego. É o que te dão para tomar quando o amor te suga, te entristece, te faz viver para ele, egoísta que é. Sua função é combater “possessividade ou co-dependência emocional, especialmente perda de ente querido, separações e melancolia nos relacionamentos amorosos”.

De certa forma, nestas horas, os amigos também te dão bleeding heart. Poucos te aconselham a quebrar a cara, amar até não ter mais jeito, lutar feito tigre encurralado pelo amor. Esquecer é melhor.

Mas o amor é este jogo, esta ciranda. Amo quem não me ama, quem me ama me persegue e tento fugir. Assim, somos e fazemos os outros infelizes. Algumas vezes, raríssimas, dois seres se olham e se encontram, desde o princípio. Quando acontece, são dois seres sortudos. Na maioria das vezes, diz a sabedoria, amor se constrói, não vem do acaso.

 

Trecho de “Bleeding heart“, de Mário Messagi Júnior

Você sabe que só eu sei de algumas coisas, não é? Detalhes que você, meio bêbada, contou enquanto se deleitava no sofá com a minha massagem no seu pé. Confidências que você, por ser orgulhosa, nunca deixou escapar nem para as suas amigas só por serem desejos e vontades que desmascaram a mulher cheia de atitude e personalidade que você busca ser 24h por dia. As roupas no chão do meu quarto não despiram somente a minha namorada, como também a garota sonhadora trancada por dentro e exibida apenas nesses momentos boêmios e quase eróticos. Digo “quase erótico”, porque ter você semi nua no sofá do meu quarto suspirando e gemendo baixinho por causa da massagem me encheria de tesão se você não ficasse tão tagarela depois de 2 cervejas.

Mas pera lá! Longe de mim reclamar desses momentos. Não encare como crítica. Eu adoro, gata, eu simplesmente adoro isso. Você se empolga na leveza do seu corpo e decide transbordar tudo aquilo que te faz pesada. Você desabafa, sonha, reclama, confessa, compartilha comigo suas ambições, sua imaginação, seus segredos como se fosse uma adolescente. Você nem mesmo nota que eu estou ali, porque é possível reparar no seu olhar que você está falando tudo aquilo para você mesma. E quer saber? Eu nem ligo de ser ignorado assim, de ser feito de parede, psicólogo ou massagista de pé. Eu sou cheio de orgulho de saber que você se sente assim, tão à vontade comigo ao ponto de deixar tudo isso escapar.

Doeu muito quando tudo acabou e eu finalmente notei que você nunca me incluiu em nenhum desses sonhos, planos, desejos. Fiquei ali, distraído com a mulher semi nua tagarela, embalado pela sua exaltação, e não percebi que nunca existiu frase com “nós” como sujeito. Me senti deixado de lado, passado à diante, ou pior: me senti como uma diversão temporária, somente enquanto você estava aqui, estagnada nesta cidade, estagnada no trabalho, somente planejando sua grande fuga. Doeu quando eu nunca mais vi roupa nenhuma sua no meu chão e não ouvi ninguém tagarelando mais que você.

Mas hoje eu parei com a minha irmã numa dessas joalherias de grife que abriram naquele shopping chique da cidade e me lembrei de uma das suas confissões mais contraditórias. Com um sorriso rosto, olhei para a vitrine quase rindo e me dei conta de que eu, somente eu, sei de algumas coisas sobre você que homem nenhum no mundo será capaz de adivinhar. Todo mundo sabe que você não quer casar, não quer vestido branco, não quer igreja e se mudaria para qualquer cafofo com o homem que você escolher para ser seu pra sempre. Mas só eu sei que você sonha com um belo e brilhante anel no dedo. Um que fará você chorar sorrindo e cuidar com carinho para depois passar para sua filha, sua neta, sua bisneta… “até alguém na família falir e vendê-lo” – disse você, tentando quebrar o romantismo do seu íntimo e secreto conto de fadas.

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